Neurociências e desenvolvimento socioemocional

Nas últimas décadas de estudo nas áreas das neurociências comportamentais muitos dos estudos têm sido realizados para estudar e conhecer quais as habilidades que devem ser desenvolvidas no ser humano para propiciar o bem-estar individual e social. Dentre os diversos estudos destacam-se aqueles que envolvem as habilidades pré-frontais e as integrações no desenvolvimento de habilidades cognitivas e socioemocionais. O comportamento resultante desses processamentos é conhecido como funções executivas e, graças a elas, o ser humano pode exercer controle sobre as suas ações e, a consciência dessas habilidades tem sido nomeadas como uma das características mais importantes a ser desenvolvida (Zink et al, 2021).

Dessa forma, cada uma das funções executivas envolvem a integração harmoniosa e completa do funcionamento cerebral. A proposta do Conecta envolve desenvolver essas habilidades de forma integrada, utilizando de estratégias lúdicas e reflexivas que envolvam questões cognitivas e socioemocionais. Através do programa busca-se desenvolver novas memórias que possibilitem a integração de habilidades cognitivas e socioemocionais. A partir da formação dessas memórias, cabe a cada um de nós proporcionar a possibilidade de treinar a escolha de comportamentos funcionais e adequados ao ambiente deixando de lado a possibilidade de respostas automatizadas e disfuncionais para uma sociedade.

Diversas habilidades que até então eram consideradas inatas e atribuídas a um desenvolvimento espontâneo tem sido cada vez mais estudadas e, comprovadamente tem-se demonstrado que sem um desenvolvimento e estimulação constantes essas funções que deveriam tornar o ser humano cada vez mais autônomo e independente podem atingir objetivos opostos tornando-o cada vez mais disfuncional. A Conecta constitui-se em cima de metodologias que preocupam-se com o comportamento humano na sociedade e cultura e integram esses conhecimentos com as neurociências e o funcionamento cerebral.

Trata-se, portanto, de considerarmos como o cérebro permite, sustenta e processa componentes e questões sociais. Dessa forma, valores como identidade coletiva, justiça social, responsabilidade e colaboração, assim como, valores individuais que são diretamente processados pelo cérebro como o pensamento independente, autogestão, resiliência e responsabilidade são contemplados e envolvem os estudos da OCDE, High Resolves e Instituto Ayrton Senna servindo como base da metodologia.

Na perspectiva das neurociências, temos a busca incessante de conhecer o funcionamento humano e, como esse funcionamento associa-se a valores sociais e culturais. Essa integração vem possibilitando metodologias cada vez mais práticas e adaptáveis que permitam desenvolver a autonomia humana de forma consciente e integrada à sociedade. Esses valores encontram-se associados ao desenvolvimento e, qualquer que seja a nossa realidade ela não pode estar individualizada ou isolada do ambiente ao nosso redor e, principalmente do planejamento do comportamento humano.

Ao contrário do que se pensava até a década de 1990, o comportamento humano não expressa o processamento cerebral. As neurociências têm se constituído como uma linha de reflexão e raciocínio científico que permite compreender o comportamento humano como resultado de processos cerebrais denominados funções executivas. Essas funções são responsáveis por planejar, modificar e organizar processos de pensamento e emoção resultando nos nossos comportamentos.

Como citado anteriormente, as funções executivas referem-se a uma área do cérebro de maturação lenta e completamente dependente do ambiente para organizar seu funcionamento conhecido como área pré-frontal. Funções essenciais para a aprendizagem educacional, laboral, social, moral, criativa e emocional encontram-se nessa região e determinam como o comportamento humano vai se apresentar para o ambiente.

Essa região do cérebro é altamente conectada com outras áreas cerebrais e estão associadas a comportamentos nomeados como controle de impulsos, planejamento, organização, atenção voluntária, metacognição, autorregulação e memória operacional (Diamond, 2013). Essas habilidades, aqui tratadas através de conceitos das neurociências encontram-se reverberadas na metodologia da Conecta através de palavras como autogestão, responsabilidade, pensamento independente e, principalmente através da proposta do ser, pensar e relacionar-se. A conexão entre esses conceitos relaciona-se profundamente com a metodologia uma vez que todas essas habilidades envolvem a integração de recursos cognitivo e socioemocionais.

Pensando no contexto educacional, desenvolver habilidades que permitam a formação de um ser humano integral envolve desenvolver cada um desses recursos considerando a integração cognitiva-emocional dessas funções e sua aplicabilidade direta em contextos lúdicos e reflexivos. O desenvolvimento integrado e emocionalmente seguro dessas habilidades estão cientificamente relacionadas com a formação de pessoas que no futuro referem maior êxito pessoal e profissional (Mischel et al, 1972, 1989; Shoda et al, 1990; Ayduk et al, 2000; Eigste et al 2006; Schlam et al, 2013; Kidd et al, 2013).

Nessa perspectiva, as habilidades socioemocionais entram como uma possibilidade de integrar a cognição e a integração social das nossas ações trazendo a funcionalidade para a aprendizagem pedagógica em tempo real. Para as neurociências – que partem da visão do cérebro e suas ativações – não existe pensamento sem emoção assim como não existe emoção sem pensamento a não ser em condições patológicas. Essas são as engrenagens do nosso funcionamento cerebral que em função das nossas memórias, resultam nas nossas escolhas comportamentais. quanto mais trabalharmos esses conceitos de forma funcional e com uso efetivo em diversos contextos mais chance teremos de que esses recursos sejam acessados e façam parte do planejamento e da regulação do comportamento. Na metodologia Conecta essas habilidades estão intrinsecamente correlacionadas com um mapeamento de perfil por meio de jogos, proporcionando a experiência de utilização prática das memórias socioemocionais e cognitivas que estão sendo desenvolvidas. Essas memórias são reativadas ao longo dos anos em diversos pilares de desenvolvimento, levando o aluno a desenvolver recursos cada vez mais estáveis e duradouros.

Quanto mais os nossos pensamentos e as nossas emoções estiverem mediados por recursos de verbalização e de linguagem, mais chance temos de desenvolver comportamentos funcionais e direcionados a objetivos. Dessa forma, estimulando a capacidade relacional e a consciência do comportamento sócio emocional de uma criança e/ou adolescente podemos otimizar o funcionamento de redes cerebrais responsáveis também pela aprendizagem cognitiva e acadêmica. A utilização de estratégias que envolvam recursos colaborativos e imersivos desenvolve a possibilidade de conhecer novas perspectivas de pensamento e emoções em diversas situações-problema, assim como a possibilidade de desenvolver a resolução de problemas de forma coletiva e, ao mesmo tempo reflexivas considerando a capacidade individual de compreensão e consciência comportamental coletiva.

Para os estudos que envolvem neurociências e o comportamento, a regulação e a nomeação emocional não se diferem daquelas que surgem de áreas cognitivas. Infelizmente, aprendemos até hoje nos contextos familiar e escolar a desenvolver essas habilidades de forma distinta e isolada, porém, a pouca associação dessas habilidades e funções torna-nos cada vez mais dependentes do controle do ambiente, tirando completamente a autonomia do indivíduo na regulação do seu próprio comportamento. É extremamente importante que as habilidades trabalhadas na metodologia Conecta possam ser discutidas abertamente e possam encontrar reflexão no ambiente familiar trazendo a possibilidade de que valores morais e sociais individuais possam ser repensados. Para a construção social a integração escola e família é fundamental para a construção do indivíduo principalmente durante o desenvolvimento e maturação cerebral.

Assim, temos a construção de habilidades que visam integrar o indivíduo a sociedade e a valores individuais e familiares. Essa integração através de estratégias lúdicas e reflexivas permitem a aquisição e o treino de forma coletiva e ao mesmo tempo personalizando valores e conceitos familiares e do mundo privado de cada um de nós.

Bibliografia

  • Diamond A. Executive functions. Annu Rev Psychol. 2013;64:135-68. doi: 10.1146/annurev-psych-113011-143750. Epub 2012 Sep 27. PMID: 23020641; PMCID: PMC4084861.
  • Mischel, Walter; Ebbe B. Ebbesen, Antonette Raskoff Zeiss (1972). Cognitive and attentional mechanisms in delay of gratification. Journal of Personality and Social Psychology. 21 (2): 204–218. ISSN 0022-3514. PMID 5010404. doi:10.1037/h0032198
  • Mischel, Walter; Yuichi Shoda, Monica L. Rodriguez (1989). Delay of gratification in children. Science. 244: 933–938
  • Ayduk, Ozlem N.; Rodolfo Mendoa-Denton, Walter Mischel, Geraldine Downey, Philip K. Peake, Monica L. Rodriguez (2000). Regulating the interpersonal self: Strategic self-regulation for coping with rejection sensitivity. Journal of Personality and Social Psychology. 79: 776–792
  • Schlam, Tanya R.; Nicole L. Wilson, Yuichi Shoda, Walter Mischel, Ozlem Ayduk (2013). Preschoolers’ delay of gratification predicts their body mass 30 years later. The Journal of Pediatrics. 162: 90–93
  • Shoda, Yuichi; Mischel, Walter; Peake, Philip K. (1990). Predicting Adolescent Cognitive and Self-Regulatory Competencies from Preschool Delay of Gratification: Identifying Diagnostic Conditions. Developmental Psychology. 26 (6): 978–986.
  • Eigste, Inge-Marie; Zayas, Vivian; Mischel, Walter; Shoda, Yuichi; Ayduk, Ozlem; Dadlani, Mamta B.; Davidson, Matthew C.; Aber, J. Lawrence; Casey, B.J. (2006). Predicting Cognitive Control From Preschool to Late Adolescence and Young Adulthood. Psychological Science. 17 (6): 478–484.
  • Kidd, Celeste; Holly Palmeri, Richard N. Aslin (2013). Rational snacking: Young children’s decision-making on the marshmallow task is moderated by beliefs about environmental reliability. Cognition. 126:109-114.
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